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Vila Real: estudo sobre a nossa interioridade

  • carloalve3
  • 24 de ago. de 2022
  • 3 min de leitura

Sobre o fim de uma mitologia


Existem ideias vãs, lugares comuns, desconhecimento que não se assume, conhecimento que se presume sobre as regiões do Interior. O Interior onde se passa férias, das praias fluviais, das serras geladas no Inverno e fervorosas no Verão, dos incêndios e da música nas ruas nos dias quentes de Agosto. A "província", como provincianamente lhe chamam as pessoas do Porto e de Lisboa. A divisão entre o Litoral e o Interior não é apenas demográfica, económica, política; essa divisão é também da ordem do desconhecimento. O Litoral não conhece o Interior e, como em tudo o que se desconhece, criaram-se mitos, generalizações, preconceitos e romantizações. Provavelmente lê-se pouco Camilo e Agustina no Litoral, e o que seria se mais se lesse?, também certamente não se lerão escritores transmontanos, beirões ou alentejanos, não há televisões regionais, as rádios locais são ridicularizadas por quem lá passa de carro e calha de ouvir discos pedidos ou anúncios do talho da vila. Há, no discurso das gentes das cidades grandes, uma complacência, um paternalismo e, pior, uma ignorância muito profundos em relação a cidades como Vila Real, Guarda, Bragança, Castelo Branco ou Évora. A "província" esperneia por mais turismo mas o Algarve litoral ganha sempre quando chega o Verão, onde sempre dá para ter a sensação de que se está em Inglaterra, mas com sol e cerveja melhor. As vilas e cidades do Interior já não são as das carroças de burros e dos caminhos de terra batida. Poderá surpreender alguém mas existem lá autoestradas e até 5G. Têm grandes centros comerciais com muitas salas de cinema - por aí não estão muito melhores do que o Porto ou Lisboa - e sofrem com décadas e décadas de desinvestimento e centralismo. Há características muito próprias e singulares de cada território, sem dúvida, mas não é o que se pinta. Para compreendê-las, é preciso ir lá, estar lá e deixar cair a ilusão que transmitimos aos outros com frases começadas por "eles lá não...". Sempre que alguém começa uma frase por "eles lá não...", temos de estar preparados para umas bordoadas de disparates.


Serve esta introdução pouco abonatória de quem quer que seja para explicar parte do que me atormentava quando decidi partir para o processo de pesquisa que iniciei em Vila Real. É uma pesquisa em artes performativas e é aí e só aí que poderei ir. Mas também aí há muito para desmistificar e este trabalho é também e necessariamente sobre desmistificação.

O processo é profundamente autobiográfico e isso justifica em parte a escolha de Vila Real para o concretizar. Sobre isso falarei em próximos textos, uma vez que, neste espaço, irei, a partir de agora, partilhar notas sobre a evolução deste trabalho, numa espécie de diário misturado com arquivo de memórias de uma investigação em curso.


O recurso à autobiografia e aos mecanismos da autoficção na experimentação e criação cénicas compõem a metodologia a utilizar ao longo deste percurso. É um trabalho laboratorial que traz para a sala de ensaios as vivências exteriores e interiores dos/as artistas envolvidos/as. Queremos experimentar as possibilidades cénicas que surgem de uma reflexão aprofundada sobre a nossa relação com o território e com a nossa condição de artistas. As actrizes Débora Ribeiro, Bibiana Monteiro e Helena Vital integram a companhia Filandorra - Teatro do Nordeste, uma estrutura com quase quarenta anos de existência. Têm, por isso, um conhecimento privilegiado de todo o território transmontano e do seu público. Dedicam o seu trabalho artístico a uma região inteira, são, em muitos casos, a única possibilidade de muitas pessoas verem teatro. Estão longe de muitos privilégios de outros sítios mas perto de todos os esforços que neste país se fazem para que a oferta cultural seja uma realidade. É nisso que temos pensado. Mas pensamos também nas nossas particularidades individuais, nas nossas histórias, no que nos moldou e no que não deixámos que nos moldasse. Nos nossos sonhos, nos nossos desejos, nas nossas verdades e nas nossas ficções. Temos trabalhado no quarto piso do Teatro de Vila Real. É um sítio alto. Às vezes pode ser bom subir a sítios altos para ver melhor ou então apenas sítios abrigados para parar e pensar melhor. No meio da descoberta há essa vontade de dizer várias coisas a muitas pessoas, assim como quem está sempre a pensar num público. Como o dizer é o que estamos a pretender descobrir. Estamos entre o real e a verdade, que é a nossa forma de ultrapassar a ficção. Páro aqui, nesta frase perigosa, para não me despistar e para ter onde pegar no próximo texto. Ou num dos próximos.

Apoios: República Portuguesa | Cultura - Direção-Geral das Artes

Filandorra - Teatro do Nordeste, Teatro de Vila Real, Ver Imperfeito - Associação Cultural e Artística

 
 
 

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Carlos Alves é membro da PLATEIA - Associação de Profissionais das Artes Cénicas

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