CARLOS ALVES
PORTUGAL
peça em cinco actos e um epílogo
A acção decorre num país chamado Portugal. É um território pequeno quando comparado com a Alemanha mas grande se o termo de comparação for o Luxemburgo. Ainda assim, durante muitas décadas, as pessoas que viviam no território chamado Portugal decidiram ir habitar para o Luxemburgo. Durante vários séculos, Portugal foi um país colonizador, de forma que se gabava de ter muitas propriedades. Agora não tem, e as pessoas nem querem muito pensar nisso.
O que aqui se apresenta é uma tragédia. É por isso que temos um Coro. A acção não se passa num só dia, o que pode complicar os estudiosos desta peça no futuro. Poderemos sempre dizer-lhes que, na primeira metade do século XXI, fazíamos tragédias assim; com um Coro e vários dias de tempo da narrativa. Talvez influência das telenovelas, que também duravam muitos meses e eram, no geral, uma tragédia; se não no conteúdo, pelo menos na forma. You know what I mean, como se costuma dizer em Portugal.
Os e as protagonistas desta tragédia são de classe alta. Bastante alta mesmo. Porque é nos heróis da classe alta que encontramos as virtudes convenientes ao estilo trágico.
Resumo
Um coro conta a tragédia heróica de um povo em luta com uma dúvida profunda. Numa era de empenhamento em combater todas as notícias falsas, a lenda da batalha de Ourique envolvendo Afonso Henriques e cinco reis mouros foi declarada proibida. A Nação, assim privada da sua mitologia fundadora, confronta-se com a obrigação de se agarrar apenas à realidade. A saga prossegue, então, entre o pessimismo instalado e a ascensão de novas ideias gloriosas. No final, acaba tudo mal, como nas tragédias. Só não sabemos quem morre com quem.
Breve reflexão sobre o texto
Este texto foi criado no âmbito dos Encontros de Dramaturgia com Patrícia Portela, promovidos por Mickael de Oliveira no Teatro Oficina, em Guimarães, ao longo de 2023.
Ele é resultado de uma pesquisa feita em torno das mitologias nacionais e de várias ideias de patriotismo e nacionalismo. A obra de Alexandre Herculano, nomeadamente a sua História de Portugal e consequentes polémicas documentadas, o livro O Meu País de Maria Filomena Mónica e o ensaio Pessimismo Nacional de Manuel Laranjeira foram textos muito relevantes no processo de investigação. À literatura acresceu um conjunto de conversas com várias pessoas sobre as suas visões do patriotismo e da ideia que têm de Nação e de Pátria.
A identidade nacional e as ficções a ela associadas são o mote para a construcção desta nova ficção. A estruturação formal em cinco actos e um epílogo, o Coro, as características atribuídas às personagens são elementos que procuram levar a peça para um anacronismo forçado. É dessa visão anacrónica sobre um país, a sua dramaturgia (mais ou menos existente) e as suas mitologias que parto. Reconheço os riscos de escrever sobre sentimentos irracionais, e temo que patriotismo seja um dos mais representativos desse tipo de sentimentos. Talvez este texto e este espectáculo possam desiludir quem dele esperar uma exaltação da pátria portuguesa ou possam ferir quem acha que não se brinca com sentimentos tão nobres.
Aqui, as ideias de identidade nacional reportam muito mais ao passado do que ao futuro. Elas estão alicerçadas numa história mais ou menos lendária, mais ou menos heróica; mas o futuro é sempre de incerteza, de medo e de nevoeiro. “Enquanto se espera o dia último, ninguém deve dizer que nenhum país foi feliz. O início, a existência e a morte de qualquer um foi, é e será sempre apenas uma ficção. Assim também Portugal” (excerto do texto).